
Sempre que me pego pensando neste tipo de desejo, lembro de um passeio que fiz com pessoas muito queridas pelo sul de Minas, atravessando a região de Furnas com direção a Goiás. Tenho uma lembrança muito boa daquelas estradas sinuosas de interior, com trechos cobertos por árvores, compondo paisagens extremamente bonitas.
Não tinha trânsito. Não havia pressa e nem preocupações. Era só eu e a moto.
Andar de moto foi uma dessas coisas que entraram na minha vida meio por acaso. Diferentemente de muita gente que cresceu apaixonada por motocicletas, eu só fui realmente me interessar por elas quando comecei a trabalhar com elas.
Não sei dizer se foi destino, coincidência ou simplesmente uma sequência de decisões que me trouxe até aqui. Mas posso dizer que tive sorte das motos entrarem na minha vida.
E entre todas as coisas que descobri por causa das motos, viajar certamente está entre as melhores.
Viajar de moto é diferente
Uma viagem de moto é uma aventura mesmo quando você não está atravessando o Atacama, entrando na Patagônia ou fazendo alguma expedição que renderia um documentário.
Pode ser simplesmente pegar uma estrada que você nunca percorreu, conhecer uma cidade pequena, parar num posto para tomar café e conversar com alguém que provavelmente nunca encontraria em outra situação.
Tem também uma coisa difícil de explicar para quem nunca pilotou por algumas horas seguidas. Na moto, você sente a viagem.
Você sente o cheiro da estrada, a mudança de temperatura, o vento, o frio, o calor. Percebe quando entra numa região de mata, quando passa perto de alguma plantação ou quando está chegando chuva. Você participa mais da paisagem.
E, ao contrário do que pode parecer, pilotar também é uma atividade bastante intensa. Você está sentado, claro, mas ao mesmo tempo está trocando marchas com o pé, usando os freios, controlando o acelerador, percebendo o comportamento da moto e observando constantemente a estrada.
Depois de algum tempo, isso vira quase automático. Acredito que pilotar seja uma uma espécie de meditação.
Sua cabeça precisa estar ali. Você começa a antecipar curvas, carros, animais, buracos e qualquer outra coisa que possa aparecer. Por algumas horas, muitos daqueles problemas que ficam ocupando espaço na cabeça simplesmente desaparecem.
Talvez tenha sido por isso que Zen and the Art of Motorcycle Maintenance, do Robert M. Pirsig, tenha me marcado tanto. Li o livro antes mesmo de ter feito grandes viagens de moto. E lembro de acompanhar aquelas estradas, conversas e reflexões imaginando como seria estar ali. De certa forma, eu viajava junto com os personagens.
Não é propriamente um livro sobre motocicletas — muito menos um manual de viagem —, mas usa uma viagem de moto para falar sobre coisas muito maiores. Tecnologia, qualidade, relações humanas, a maneira como enxergamos o mundo e, principalmente, a maneira como vivemos.
Foi uma leitura que ficou comigo.
Anos depois, quando comecei a viajar de verdade, algumas daquelas sensações passaram a fazer muito mais sentido.
Mas tem uma parte que o Instagram normalmente não mostra
Existe, porém, uma romantização meio exagerada das viagens de moto. Na internet parece que é sempre uma estrada cinematográfica, uma moto impecável, pôr do sol, montanhas ao fundo e alguém tomando café numa caneca de alumínio ao lado de uma barraca. Não é bem assim.
Talvez seja assim para o sujeito que comprou um pacote all inclusive para atravessar os Alpes Suíços de BMW GS, com hotel esperando no final do dia e uma van levando a bagagem.
O fato é que a realidade do afegão médio é bem diferente. Naquela viagem pelo sul de Minas que mencionei no começo, por exemplo, o pneu da moto de um dos meus parceiros estourou enquanto estávamos rodando. Até hoje não sabemos direito como ele não caiu. Acho que foi milagre mesmo.
Tem também o cansaço. Depois de algumas horas começam a doer as costas, a bunda, os braços. Dependendo da moto, você passa a procurar uma posição confortável que simplesmente não existe.
Alguns trechos são monótonos. Outros são cansativos. Chuva é um saco. Calor extremo também. Frio demais deixa de ser bonito rapidamente. E existe risco.
Aqui no Centro-Oeste, por exemplo, há trechos com muito caminhão e carreta. É preciso ter prudência, saber a hora de ultrapassar e, principalmente, saber a hora de não ultrapassar. Você precisa entender que viajar de moto também pode ser desconfortável.
E talvez justamente por isso seja tão marcante.
Você sempre leva o pacote inteiro
Acho engraçado quando alguém vende uma experiência como se existisse apenas o lado bom dela. Infelizmente, muita gente compra cachorro de raça basicamente para postar fotos no Instagram.
Ok, o cachorro é bonito. Mas ele também caga, mija, precisa comer, pode ficar doente e talvez goste de mastigar o pé da sua mesa. Você não escolhe apenas a parte bonita, você leva o pacote inteiro.
Com viagem de moto é a mesma coisa.
Existem momentos fantásticos, paisagens que você nunca esquece, conversas que ficam para a vida toda e aquela sensação maravilhosa de estar em movimento sem ter muita preocupação além de chegar ao próximo destino.
Mas também existe chuva, dor nas costas, pneu furado, posto sem gasolina, estrada ruim e aquela hora em que você começa a se perguntar por que diabos resolveu sair de casa. E está tudo certo. Viajar de moto não precisa ser incrível o tempo inteiro para ser maravilhoso.
Comece com a moto que você tem
Talvez um dos maiores erros de quem tem vontade de começar a viajar seja achar que precisa primeiro montar todo aquele estereótipo do viajante de moto. Big trail, três baús de alumínio, GPS, intercomunicador, jaqueta que parece roupa de astronauta, etc... Nada disso é obrigatório.
Se você tem vontade de viajar, comece com a moto que tem. Junte alguns amigos, acorde cedo num sábado e vá tomar café numa cidade vizinha. Escolha uma estrada legal. Vá almoçar em algum lugar diferente. Se morar perto do litoral, faça o famoso bate e volta.
Você não precisa atravessar um continente para fazer uma viagem de moto. Eu já peguei estrada até de scooter — coisa que, dependendo da estrada, não recomendo muito porque potência faz falta.
Mas acho que a coisa mais doida que fiz em termos de viagem, foi ter feito um "rally" com a minha Tornadinho. Eu tinha a opção de seguir pela rodovia ou pegar um caminho mais curto por terra, passando por terras indígenas e fazendas enormes.
Acabei escolhendo pegar a estrada de terra e até hoje não esqueço de alguns daqueles trechos. Foram dezenas de quilômetros em que parecia não existir absolutamente nada ao redor. Não tinha árvore, não tinha bicho, não tinha casa, não tinha uma alma viva. Era só o céu, a estrada de terra e plantação até onde a vista alcançava - A sensação de isolamento era surreal.
Em algum momento você começa até a pensar: como alguém tem uma fazenda desse tamanho? Aquilo parecia uma cidade inteira transformada em lavoura, no meio de um lugar completamente isolado. E foi justamente ali que aqueles tanques Gili enormes para Tornado deixaram de parecer exagero - ainda bem que não tirei o tanque quando comprei a moto!
Se faltasse combustível no meio daquele trecho, eu nem gosto de imaginar. Empurrar uma Tornado por 40 ou 50 quilômetros, debaixo do calor escaldante do Cerrado e sem uma alma viva por perto, teria transformado a aventura numa história bem diferente.
Mas no fim deu tudo certo, consegui chegar num vilarejo para abastecer, tomar aquele guaraná regional trincando e "impressionar" os locais que achavam por alguma razão que eu estava vindo de muito longe (acho que era pela jaqueta e outros equipamentos) - enfim, foi legal para caramba.
Uma Tornadinho só o caramelo, estrada de terra e uma imensidão que eu provavelmente nunca teria conhecido se estivesse preocupado em esperar pela “moto certa” para viajar.
E vou dizer uma coisa que talvez deixe algumas pessoas bravas: eu me divertia mais viajando naquela Tornado do que com algumas motos de alta cilindrada que tive depois.
O destino vai ficando mais longe sozinho
Depois dos primeiros passeios, talvez você queira ir um pouco mais longe. A viagem de 100 quilômetros vira uma de 300. Depois aparece uma viagem de fim de semana.
Mais tarde você começa a olhar para aquele lugar que fica a mil quilômetros de distância e pensa: “Dá para ir". Quando percebe, já está estudando uma viagem internacional ou imaginando como seria cruzar o país. Deus sabe onde isso pode terminar.
De qualquer forma, o Brasil é um país absurdamente bonito e merece ser conhecido. Existem serras, chapadas, praias, estradas históricas, cidades pequenas, florestas e lugares que muitas vezes estão a poucas horas de onde vivemos e que nunca paramos para conhecer.
Talvez essa seja uma das coisas mais bonitas de viajar de moto. O destino importa, claro. Mas não é só sobre chegar.
É sobre aquela conversa durante o café da manhã antes de sair, a parada inesperada no caminho, o amigo reclamando que está com a bunda doendo, a chuva que obriga todo mundo a se esconder num posto, uma estrada que você não sabia que era tão bonita e as histórias que continuam sendo contadas muitos anos depois.
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