As categorias de base são essenciais para a manutenção do esporte, e recentes eventos ligados à formação de pilotos no país podem ser uma janela de oportunidade inédita para a profissionalização da cadeia produtiva ligada à motovelocidade brasileira.

Mini motos deveriam ser mais populares no Brasil... É o kart da motovelocidade.
Recentemente soube que o Moto1000GP terá em sua grade de categorias a Moto4 Latin Cup a partir da temporada 2026. Esta categoria faz parte do programa Road to MotoGP idealizado pela Dorna com o objetivo de identificar novos talentos ao redor do mundo. Este projeto se junta ao já consolidado BLU CRU da Yamaha, como projetos de referência na formação de jovens pilotos sulamericanos.
É mais um movimento muito interessante e bem-vindo por aqui. No caso da Moto4, chama a atenção o fato de ser disputado com motocicletas protótipo (as Honda NSF250), algo inédito por estas terras. Além disso, a Latin Cup faz parte do caminho “oficial” rumo à MotoGP, o que traz muitas vantagens para jovens que sonham em competir na categoria máxima da Motovelocidade.
Todavia, antes de prosseguir com meu raciocínio, deixe-me fazer um parêntese. Os dois projetos citados anteriormente são igualmente relevantes, não existindo um melhor ou pior - cada qual com suas propostas e objetivos.
O Brasil não tem grande tradição na motovelocidade, especialmente se compararmos com o automobilismo. O cenário já foi melhor no passado, mas este foi se apagando com o passar das décadas. Os anos 2000, entretanto, trouxeram um novo fôlego, impulsionado pelo “boom” do mercado de motocicletas esportivas no país, que culminou, entre outras novidades, em iniciativas para criação de categorias de base - algumas inclusive vinculadas aos então recém-criados Superbike Series e Moto1000GP. Alguns projetos saíram do papel, mostrando-se ótimas iniciativas, mas sem ter o reconhecimento e retorno merecido.
Eu já participei de um destes projetos - que não deu muito certo, mas me permitiu ter uma visão mais ampla dos desafios de se fazer uma categoria de base no Brasil. De acordo com minhas experiências passadas, o "bicho pega" nos seguintes fatores:
1. Base de fãs pequena: como tem pouca gente que conhece e acompanha a modalidade por aqui, é de se esperar que a base de praticantes seja pequena também. A cobertura de mídia historicamente é bem limitada, inclusive para MotoGP. Em paralelo, a disponibilidade de instalações e eventos para prática é restrita também.
2. Econômico: esporte a motor é “caro” por natureza, ainda mais se demanda muitos itens importados, como no caso da Motovelocidade. Deve-se considerar nesta equação o poder de compra limitado do brasileiro médio também. Para ter uma ideia: no Brasil, onde o salário mínimo está na casa dos 1500, um jogo de pneus esportivos custa cerca de 3000 dinheiros. Já na Espanha, cujo mínimo é de aproximadamente 1200, o mesmo jogo custa cerca de 600 dinheiros na moeda local. É uma baita diferença.
3. Cultura: motocicleta no Brasil é vista muito mais como um meio de transporte (barato e perigoso) do que como um passatempo ou esporte. Na Espanha e Itália, é comum também as crianças começarem nas minimotos a partir dos 5-6 anos, algo impensável até pouco tempo atrás por aqui.
O ano de 2026 pode marcar uma nova fase de impulso para a modalidade no país. As novas iniciativas na formação de pilotos, a participação do Diogo Moreira na MotoGP e a própria mudança dos gestores do mundial são alguns fatores que, em minha opinião, constituem uma janela de oportunidade inédita por aqui. Apesar das dificuldades que temos em nosso país, alcançar os níveis mais altos da motovelocidade nunca esteve tão ao alcance como agora.
Dar oportunidade a jovens de buscarem seus sonhos esportivos é incrível, mas, particularmente, acredito que temos agora condições para solidificar uma indústria em torno da modalidade nestes próximos anos. O cenário atual é propício para a expansão dos negócios já existentes, para a criação de novos empreendimentos e geração de empregos. Ou seja, criar uma cadeia sustentável de negócios, profissionalizando completamente o setor.
Olhando para o que acontece na Espanha, claramente existe margem para muita coisa ser agregada. Faltam escolas de pilotagem dedicadas à formação de jovens, faltam escolas para formação de mão de obra capacitada para competição (mecânicos, técnicos e engenheiros), faltam equipes que consigam “viver” da motovelocidade (basicamente todas as equipes no Brasil são oficinas que dividem esforços entre manutenção e competição), falta demanda para produtos fabricados no país (tem coisa boa feita por aqui, mas cuja demanda pequena desestimula investimentos).
É um assunto do qual aprecio muito como gestor esportivo, mas como o artigo já está extenso, pretendo retornar ao assunto mais para frente. De qualquer forma, acredito que a formação de jovens é uma engrenagem essencial para um ciclo virtuoso de desenvolvimento do esporte no país. Fazendo bem feito esta parte, os grandes patrocinadores, investidores, o interesse dos veículos de mídia, chegarão em algum momento.
Notas:
- Quero compartilhar o link do podcast dos irmãos Barros que citei no artigo, vale a pena assistir: https://www.youtube.com/watch?v=TvMuRz68fYw
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