Mundial de Superbike ou Panigale V4 Cup?
Comecei a assistir ao Mundial de Superbike por volta de 2008 e achava aquilo sensacional. Particularmente, era fã do Noriyuki Haga e daquelas Ducati 1098 com seus dois cilindros em L — um verdadeiro "tratorzão" italiano tentando encarar de frente o “Big Four” japonês.
E aquela época entregou alguns momentos que ficaram na memória.
Lembro até hoje do Kiyonari andando em Donington na chuva, com a moto sambando para todo lado, e de Marco Simoncelli aparecendo como convidado pela Aprilia em Imola e ultrapassando ninguém menos que Max Biaggi na última chicane. Tinha alguma coisa meio maluca naquela categoria que fazia você querer assistir.
Depois disso, fiquei vários anos sem acompanhar o campeonato de verdade. Lia notícias, via resultados, acompanhava alguma coisa aqui e ali, mas raramente sentava para assistir a uma prova inteira.
Este ano resolvi voltar. E, cara... como mudou.
Algumas coisas mudaram para melhor
Não quero transformar isso num daqueles textos de “antigamente tudo era melhor”, porque não era.
O WorldSBK atual tem coisas interessantes. A volta da Bimota ao campeonato é uma delas. Ver uma marca com aquela história novamente no grid é muito legal. Miguel Oliveira chegando à BMW também trouxe um nome conhecido da MotoGP e já conseguiu bons resultados em sua primeira temporada, incluindo quatro pódios até aqui.
Nas categorias menores também existem histórias legais acontecendo. Então não é que tenha acabado o que vale a pena acompanhar. O problema é que, olhando principalmente para a categoria principal, fiquei com uma sensação estranha: parece que o WorldSBK perdeu parte daquele espírito que fazia dele um campeonato tão interessante.
E aí vem a pergunta inevitável: será que o campeonato piorou mesmo ou eu simplesmente estou ficando velho e saudosista? Provavelmente tem um pouco dos dois.
A Superbike que eu lembro era diferente
O Mundial de Superbike daquela época também tinha seus problemas. Tecnicamente, as motos já estavam se afastando bastante do conceito original de “moto de rua preparada para correr”. Havia muita liberdade de desenvolvimento e se gastava bastante dinheiro.
Mas aquilo também fazia parte do espetáculo. Você tinha Ducati, Yamaha, Honda, Kawasaki, Suzuki, Aprilia e BMW envolvidas, pilotos com personalidades fortes e um grid que parecia ter uma identidade própria. E havia dinheiro circulando.
Era comum encontrar patrocinadores de fora do universo motociclístico: Hannspree, Xerox, Alitalia, Dark Dog e tantos outros. O campeonato passava uma sensação de evento internacional consolidado.
Todavia, a impressão atual é bem diferente e o calendário de 2026 talvez seja a melhor representação disso. Apenas a abertura em Phillip Island, na Austrália, acontece fora da Europa. As outras 11 são europeias. Na prática, virou quase um Campeonato Europeu de Superbike com status mundial.
E aí chegou a Dorna
Quando a Dorna assumiu o controle comercial do WorldSBK, a relação entre os dois campeonatos inevitavelmente mudou.
Naquela época, o Superbike ocupava um espaço grande dentro da motovelocidade mundial. Não parecia simplesmente uma categoria secundária para quem não estava na MotoGP. Tinha seus próprios astros, equipes, patrocinadores e, principalmente, uma identidade muito forte.
Com o passar dos anos, essa hierarquia ficou mais evidente. A MotoGP se consolidou como o produto principal, enquanto o WorldSBK passou a ocupar uma posição claramente abaixo dela dentro do mesmo ecossistema.
Não acho que a explicação seja simplesmente “a Dorna quis acabar com a Superbike”. Seria fácil demais colocar tudo nessa conta. Até porque muita coisa mudou fora dela também.
As próprias motos mudaram
Um desses fatores está nas fabricantes. Enquanto algumas continuaram evoluindo suas superbikes de forma consistente, outras reduziram investimentos, abandonaram projetos ou simplesmente deixaram esse mercado perder importância.
A Suzuki talvez seja um dos exemplos mais evidentes. Durante muitos anos, a GSX-R1000 recebeu muito mais atualizações pontuais do que revoluções, enquanto concorrentes continuavam avançando.
Já a Ducati por sua vez, fez um caminho reverso - continuou tratando a superbike como produto estratégico até chegar ao ponto praticamente inalcançável em que chegou. E não dá para culpar a Ducati por fazer o trabalho direito.
O problema de saber quem vai ganhar
Talvez o maior inimigo de qualquer campeonato seja a previsibilidade.
Durante anos tivemos Jonathan Rea e Kawasaki dominando o WorldSBK. Agora estamos vendo outra fase de domínio, desta vez com Ducati e Nicolò Bulega. E aqui precisamos separar duas coisas.
Como fã de motovelocidade, é impossível não admirar um piloto operando nesse nível. Depois de Magny-Cours, Bulega somava 26 vitórias na temporada atual e estava a apenas uma do recorde de Álvaro Bautista em uma única temporada. O cara está pilotando muito.
Mas, como entretenimento, existe um problema.
Qual é a graça de começar uma corrida praticamente sabendo quem vai ganhar?
Competência esportiva e entretenimento não são necessariamente a mesma coisa. Um piloto ou equipe dominando por muito tempo pode ser tecnicamente impressionante e, ao mesmo tempo, tornar o campeonato muito menos interessante para quem está assistindo.
E aí começa o efeito bola de neve
Talvez essa seja a parte que mais preocupa.
Um campeonato menos competitivo tende a despertar menos interesse. Menos interesse pode significar menos audiência. Menos audiência reduz a atratividade comercial. Menos dinheiro entrando aperta principalmente quem já trabalha com orçamento limitado. E a roda continua girando.
Também não acho correto dizer simplesmente que “ninguém mais vai às corridas”. Misano, por exemplo, recebeu mais de 76 mil espectadores em 2025 e teve audiência média de televisão próxima de 10 milhões.
Mas, assistindo a algumas etapas, fica uma impressão bem diferente daquela atmosfera de um grande campeonato mundial que eu tinha anos atrás.
Existem ainda questões econômicas muito maiores: custo das equipes, mercado de superbikes, hábitos das novas gerações, mudanças na maneira de consumir esporte, transmissão das corridas e os efeitos das crises globais recentes.
Só isso já daria outro artigo, mas vamos parar por aqui.
Ainda tem muita coisa boa
Apesar de tudo isso, continuo achando que o Mundial de Superbike tem um potencial enorme.
A ideia continua fantástica: colocar frente a frente motos que, pelo menos conceitualmente, ainda possuem ligação com aquilo que você pode encontrar numa concessionária. Poucas categorias oferecem essa conexão.
E algumas movimentações recentes podem ajudar. Miguel Oliveira permanece na BMW e Brad Binder já está confirmado para correr ao lado dele em 2027. Jack Miller também está confirmado na Yamaha. Ou seja: nomes conhecidos da MotoGP continuam enxergando o WorldSBK como um caminho interessante. Talvez isso coloque um pouco mais de fogo na competição.
O regulamento também precisa encontrar uma maneira de aproximar as fabricantes sem simplesmente punir quem fez o melhor trabalho. Ninguém quer que a Ducati fique ruim, a gente quer que Honda, Yamaha, BMW, Kawasaki/Bimota e as outras consigam andar junto.
Porque continuar assim é perigoso
Meu receio é o que acontece se nada mudar. Um campeonato previsível, concentrado praticamente em um único continente e dependendo cada vez mais de um público que já gosta de motovelocidade corre o risco de entrar numa espiral complicada.
Primeiro diminui o interesse. Depois diminuem patrocinadores. Equipes passam a ter dificuldade. Fabricantes começam a questionar se vale a pena continuar investindo. E recuperar relevância depois disso é muito mais difícil do que mantê-la.
Talvez uma independência maior em relação à MotoGP ajudasse. Talvez seja necessário rever calendário, promoção, transmissão, regulamento e até a maneira como o próprio campeonato se posiciona. Provavelmente é uma mistura de tudo isso.
O WorldSBK tem história demais para aceitar simplesmente o papel de segunda divisão da motovelocidade. O que está faltando é fazer tudo isso voltar a parecer imperdível. Porque hoje, infelizmente, muitas vezes não parece.
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