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Há alguns meses, precisei trocar o pneu da minha scooter e fui atrás de uma borracharia aqui da cidade que atende este tipo de veículo. Não é fácil encontrar uma por aqui, tem pouca scooter por aqui.

Ao final das contas, acabei voltando a uma borracharia no centro, tocada por um senhor que já me quebrou o galho no passado – ele não gosta de scooter, mas foi com a minha cara. Todavia, neste dia estava em seu lugar um jovem com cerca de 16-17 anos.

Ele fazia uma espécie de turno duplo no dia, trocando pneus e atuando como babá da sua pequena irmã que permanecia em uma cadeira de fios, desenhando.

Como eu não o conhecia, esperei alguma resistência pelo tipo da moto, o que não se confirmou. Me atendeu prontamente e logo iniciou o procedimento de troca.

Enquanto isso, encostei-me num canto da borracharia e comecei a prestar atenção no ambiente… Na sujeira, na bagunça, nas ferramentas velhas e em como aquele negócio foi montado do jeito que dava. Isso é um padrão em muitos negócios no Brasil, independente do segmento.

Não existe busca por excelência ou realização de um sonho profissional… Estas pessoas estão apenas lutando para sobreviver.

E, olhando para o jovem borracheiro, fiquei pensando em que tipo de vida ele tem, em que tipo de dinâmica familiar ele está inserido, e não menos importante, que perspectivas futuras ele teria. Infelizmente, esta atividade na prática é mais um dos tantos “subempregos” em que temos às vezes de nos submeter para atender a uma necessidade urgente de sobrevivência.

Isto é um assunto mais profundo do que parece e comecei a entender isso quando morei fora. Tinha um alemão gente fina com quem conversava sobre carros e corridas, e certa vez estávamos conversando sobre a vida na Alemanha quando comentou sobre o padrão de sucesso profissional por lá.

Segundo ele, ser engenheiro e trabalhar em uma empresa multinacional é um padrão que te coloca na categoria dos que deram certo na vida. Qualquer coisa abaixo é vista como um fracasso na sociedade e até dentro das próprias famílias.

Esta pressão social pode até ser algo bom, se pensarmos em questão de progresso tecnológico e produção de riquezas. Todavia, pode ser um veneno para a alma da pessoa também, pois nem todo mundo se encaixa neste tipo de vida corporativa.

Ainda nesta conversa, lembro-me de uma reflexão muito interessante feita por ele: e se uma pessoa quiser ser “apenas” um açougueiro? É o que ele gosta de fazer, é o que o motiva a acordar cedo todos os dias, é a forma dele contribuir com a sua comunidade… Nem todo mundo quer ou tem aptidão para ser um CEO, um engenheiro, um banqueiro… Justo.

Enfim, retornando ao personagem principal deste artigo, relembrei desta conversa, conectei alguns pontos e fiquei pensando: será que ele é feliz? Será que ele vislumbra algo diferente na vida? Sei lá, ser um empresário, ir à universidade ou viajar mundo afora… Até que ponto ele não é vítima do meio e das circunstâncias da vida? Talvez ele nem sequer tenha pensado sobre isso, ou saiba que existem outras realidades a explorar…

Certamente, ele não é um privilegiado da sociedade e não está lá por simples opção. Todavia, a bolha em que ele está inserido parece não permitir ver o mundo de uma perspectiva mais ampla, mesmo dentro do contexto da borracharia, por exemplo. Duvido que tenha acesso à educação de qualidade ou que seus pares tenham algo a agregar que vá além das trivialidades da vida, como futebol e o churrasquinho de final de semana.

Provavelmente, o futuro deste jovem será o mesmo de muitos que vemos pelo país, que, por limitada formação, se tornam reféns do estado e do sistema ao qual estão inseridos. Sistema este que parece nos programar desde o nascimento para fracassar na vida – não desenvolvemos o hábito de ler, não aprendemos a lidar com dinheiro, somos manipulados a abraçar ideologias políticas para servir interesses de terceiros, somos estimulados a consumir sem limite, entre tantas outras coisas que tornam nossas vidas miseráveis.

E é engraçado que nunca tivemos tanto acesso à informação como temos hoje através da internet. Porém, as pessoas nunca foram tão estimuladas a consumir conteúdos fúteis e enganosos, privando-as de construir qualquer capacidade de pensamento autônomo. Acho que ter discernimento sobre estes pontos poderia ser um primeiro passo para construção de um país melhor para todos.


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