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O próximo desafio deve ser o Moto America em 2027 (e de Yamaha)


Quem acompanha esportes já deve ter percebido como é fácil julgar um atleta sentado confortavelmente no sofá. Basta uma atuação ruim para aparecerem os especialistas de plantão: o sujeito é um lixo, um mercenário, uma fraude... O repertório de adjetivos é praticamente infinito. E isso vale para o futebol, basquete, motovelocidade e tantos outros esportes.

O curioso é que boa parte dessas pessoas provavelmente não faz ideia do que significa ser um atleta profissional. Muito menos das dificuldades enfrentadas para chegar à elite de uma modalidade. Mesmo aqueles que são considerados talentos geracionais e deixam seus nomes na história do esporte, possuem seus momentos de dificuldades.

A verdade é que a maioria dos pilotos profissionais jamais conquistará um título mundial, terá um contrato milionário ou se tornará ídolo de uma geração. Alguns passarão a carreira inteira tentando conquistar uma oportunidade que talvez nunca apareça. E mesmo aqueles que chegam ao topo podem descobrir que permanecer ali é ainda mais difícil.


Danilo Petrucci e uma carreira fora do roteiro

Recentemente, li uma entrevista de Danilo Petrucci ao site Crash.net que me fez refletir sobre essas questões.

O italiano é um daqueles pilotos pelos quais tenho bastante simpatia. Não veio de uma família milionária — seu pai trabalhava como motorista de caminhão no ambiente das competições — e foi construindo sua carreira dançando conforme a música. Ele é um dos poucos que conseguiram chegar a MotoGP pelo caminho do WSBK.

Apesar dessas dificuldades, construiu uma bela carreira. Chegou à MotoGP, conquistou uma vaga na Ducati oficial e venceu duas corridas, incluindo uma emocionante vitória em Mugello, diante de sua torcida, em 2019.

Depois de deixar a categoria, Petrucci resolveu encarar o Rally Dakar com a KTM. E não apenas participou como venceu uma etapa em 2022! No mesmo ano, disputou o MotoAmerica, terminando como vice-campeão. Posteriormente, retornou ao Mundial de Superbike com a Barni Ducati, onde conquistou vitórias e pódios.

É justamente esse aspecto que admiro em sua trajetória. Petrucci parece ser, antes de qualquer coisa, um cara que gosta das corridas de moto. Um racer, como dizem os ingleses. Não tem frescura...

Pode não ter se tornado uma lenda do esporte, mas convenhamos que realizou muito mais do que a maioria dos pilotos profissionais consegue alcançar.


A oportunidade que parecia perfeita

Depois de três boas temporadas com a Barni Ducati, Petrucci recebeu uma proposta para integrar a equipe oficial da BMW no Mundial de Superbike em 2026.

Era uma oportunidade importante. Ele retornaria à condição de piloto de fábrica, numa estrutura que havia conquistado os dois títulos mundiais anteriores com Toprak Razgatlıoğlu. Aos 35 anos, talvez fosse uma das últimas grandes chances de sua carreira.

Mas trocar de equipe e motocicleta nunca é uma decisão simples. Especialmente quando você deixa um ambiente conhecido, com técnicos e mecânicos com os quais já desenvolveu uma relação de confiança, para começar praticamente do zero.

Petrucci aceitou o desafio. E aí começaram os problemas.

Segundo o próprio piloto, a temporada de 2026 foi uma espécie de tempestade perfeita, na qual praticamente tudo que poderia dar errado acabou dando.

Para começar, as chuvas prejudicaram os testes da pré-temporada, justamente quando ele precisava conhecer a BMW M 1000 RR e desenvolver uma base de acertos para o campeonato.

Já abordei a importância dessa fase aqui no Motopraxia, no artigo O lado oculto das corridas: o que realmente acontece nos testes de pré-temporada?, baseado em um vídeo do ex-piloto Taylor Mackenzie. É nesse período que pilotos e equipes desenvolvem os acertos básicos da motocicleta, estabelecem referências e procuram encontrar a sintonia necessária para enfrentar a temporada.

Quando o campeonato começa, tudo fica mais complicado. Os finais de semana são curtos, os testes são limitados e a pressão por resultados não espera ninguém.

Como se não bastasse, quando começava a encontrar um caminho, Petrucci sofreu um acidente violento em Most, na República Tcheca, que provocou lesões na perna e o afastou de algumas etapas.

A BMW também enfrentava dificuldades para reproduzir a competitividade demonstrada nas temporadas anteriores. Some a isso as características físicas do italiano, a necessidade de recuperar a confiança e a pressão permanente por resultados. Temos, de fato, uma combinação bastante ingrata.

No fim das contas, aquilo que parecia uma grande oportunidade terminou com sua saída da equipe após apenas uma temporada.


Quando o risco deixa de ser apenas esportivo

Mas existe um aspecto dessa história que considero ainda mais importante do que os resultados nas pistas.

Na entrevista à Crash.net, Petrucci revelou que, após a queda em Most, chegou a ficar momentaneamente sem sentir as pernas. Uma experiência assustadora, que o fez questionar se ainda valia a pena correr tantos riscos aos 36 anos.

Aqui a conversa muda bastante de figura.

Estamos falando de um esporte em que, apesar dos enormes avanços na segurança, uma queda pode produzir consequências irreversíveis. Não é apenas uma questão de perder uma corrida ou um contrato. É a possibilidade de sofrer uma lesão que comprometa sua autonomia e sua qualidade de vida para sempre.

É claro que os pilotos conhecem os riscos. Faz parte da profissão. Mas imagino que a percepção desses perigos seja diferente para um jovem de 20 anos, disposto a conquistar seu espaço, e para um veterano que já construiu uma carreira e começa a pensar no que deseja fazer com o restante da vida.

Afinal, até que ponto vale a pena perseguir mais uma vitória se o preço potencial for perder a capacidade de aproveitar tantas outras coisas boas que a vida oferece?

Não existe uma resposta universal. Cada atleta tem suas ambições, suas necessidades financeiras e sua própria relação com o risco. Mas são decisões que vão muito além daquilo que aparece na tabela de classificação.


Nem tudo depende de talento e esforço

A história de Petrucci também serve para lembrar que o sucesso esportivo não depende exclusivamente de talento, dedicação ou força de vontade.

Esses elementos são fundamentais, evidentemente. Mas existem inúmeras variáveis que fogem ao controle de um piloto: a qualidade do equipamento, a estrutura da equipe, as oportunidades disponíveis, as lesões e até o momento em que determinadas decisões são tomadas.

Estar no lugar certo, na hora certa, pode fazer uma diferença gigantesca. Assim como estar no lugar errado, mesmo tomando uma decisão perfeitamente razoável.

Isso não significa que Petrucci teria conquistado o título caso permanecesse na Ducati, nem que a BMW tenha sido uma escolha equivocada. É impossível saber. A oportunidade era interessante e havia bons motivos para acreditar que tudo poderia funcionar, mas simplesmente não funcionou.

E talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de aceitar numa sociedade que costuma associar qualquer resultado negativo à falta de competência, esforço ou determinação.

Às vezes fazemos tudo aquilo que está ao nosso alcance e, mesmo assim, o resultado não aparece.


A vida não é um campeonato

Pensando bem, essa história não é tão diferente daquilo que acontece com a maioria de nós.

Desde cedo somos estimulados a perseguir grandes realizações. Precisamos construir uma carreira brilhante, ganhar bastante dinheiro, ter uma empresa de sucesso, alcançar reconhecimento e, de preferência, mostrar tudo isso nas redes sociais.

O problema é que frequentemente usamos como referência pessoas que tiveram oportunidades, condições familiares, recursos financeiros e trajetórias completamente diferentes das nossas.

É como um piloto de uma equipe pequena, com orçamento limitado, cobrar de si mesmo os resultados de alguém que dispõe da melhor moto, dos melhores engenheiros e de uma estrutura milionária. Ele pode até ser tão talentoso quanto o adversário, mas as condições de competição estão longe de ser equivalentes.

Na vida acontece a mesma coisa. E, quando transformamos essas comparações em medida de sucesso pessoal, corremos o risco de passar décadas frustrados por não termos nos tornado um grande empresário, um Neymar da vida ou alguma celebridade.

Isso não significa abandonar ambições ou deixar de lutar por uma vida melhor. Pelo contrário. Acho importante estabelecer objetivos, trabalhar para alcançá-los e procurar evoluir constantemente. Só não podemos esquecer que a vida não funciona como uma equação na qual esforço e dedicação produzem, obrigatoriamente, os resultados que desejamos.

Talvez a única comparação honesta que possamos fazer é com nós mesmos. Olhar para trás, reconhecer o quanto aprendemos, aquilo que superamos e as experiências que tivemos. E procurar melhorar um pouco mais, respeitando nossas próprias circunstâncias.

Petrucci pode não ter conquistado um título mundial, mas venceu corridas na MotoGP, no Mundial de Superbike, no MotoAmerica e até uma etapa do Dakar. Conheceu lugares, trabalhou com grandes profissionais e construiu uma trajetória que pouquíssimas pessoas conseguiram realizar.

Em sua despedida do WSBK, o italiano deixou claro que deseja encontrar felicidade e aproveitar o que a vida lhe oferece, sem necessariamente continuar perseguindo resultados a qualquer custo - o que pode ter sido o maior aprendizado de sua história.

Nem sempre estaremos no lugar certo, as oportunidades nem sempre produzirão os resultados esperados e alguns sonhos provavelmente ficarão pelo caminho. Faz parte.

Mas uma vida bem vivida não deveria ser medida apenas pelos troféus que conseguimos colocar na estante. Também importa o caminho que percorremos, as pessoas que conhecemos e aquilo que aprendemos durante a jornada.

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